O clima nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial em Bangkok não foi exatamente de festa, mas sim de uma cautela que beira o pessimismo moderado. Enquanto os índices de ações em Nova York tentam bater recordes e investidores celebram o fim do ciclo de alta de juros, a cúpula financeira global está olhando para as engrenagens que ninguém vê no dia a dia. A economia mundial provou que aguenta o tranco, superando uma pandemia e crises energéticas sem um colapso total, o que é quase um milagre técnico. Porém, esse fôlego extra que vimos até agora está começando a dar sinais claros de desgaste diante de novos desafios que surgem de forma silenciosa e persistente no cenário internacional.
Esse alerta do Fundo Monetário Internacional não vem do nada e serve como um banho de água fria em quem achava que o pior já tinha passado com a queda lenta da inflação. O presidente do Comitê Monetário e Financeiro Internacional, Mohammed Aljadaan, deixou claro que a resiliência é um fato, mas não é uma garantia eterna de estabilidade. O problema central agora é que os governos ao redor do mundo estão com as mãos atadas por dívidas gigantescas acumuladas durante os anos de crise. Sem dinheiro em caixa e com juros que ainda teimam em não baixar no ritmo que todos gostariam, a margem de erro para qualquer novo choque externo é praticamente zero, deixando o sistema vulnerável.
A conta da festa chegou e ninguém quer pagar
A grande questão técnica que o FMI coloca na mesa é o chamado espaço fiscal, ou a falta dele. Durante anos, os países se acostumaram a injetar dinheiro na economia para resolver qualquer problema, desde a quebra de bancos em 2008 até o fechamento total na pandemia. O resultado disso é um endividamento global que consome boa parte do que os países produzem apenas para pagar juros. Quando o FMI fala em manter políticas macroeconômicas prudentes, ele está mandando um recado direto para os políticos: parem de gastar o que não têm. O risco é que, se uma nova crise estourar amanhã, não haverá mais cartuchos para queimar, e a queda livre será muito mais dolorosa para as populações.
Ao comparar com cenários de décadas passadas, percebemos que a economia mundial perdeu sua rede de proteção. Antigamente, quando os Estados Unidos ou a Europa entravam em apuros, havia um esforço coordenado para manter o motor girando. Hoje, o que vemos é uma briga de foice no escuro. As taxas de crescimento projetadas para os próximos anos são medíocres e não dão conta de resolver os problemas sociais ou de financiar a transição para fontes de energia mais limpas. O FMI observa que a produtividade está estagnada em quase todo o planeta, e sem ela não existe mágica econômica que sustente o bem-estar social no longo prazo, especialmente com o envelhecimento populacional batendo à porta.
O fim da cooperação e o perigo do cada um por si
Um dos pontos mais sensíveis discutidos em Bangkok é o que o fundo chama diplomaticamente de fragmentação geoeconômica. Traduzindo do economês para o português claro, isso significa que o mundo está se dividindo em blocos que não confiam uns nos outros. A guerra comercial entre China e Estados Unidos, somada aos conflitos na Europa e no Oriente Médio, destruiu a ideia de um mercado global fluido. Cada país agora quer proteger seu próprio quintal com tarifas e subsídios, o que encarece tudo, desde o chip do seu celular até o preço dos alimentos. Esse egoísmo econômico é o maior veneno para o crescimento sustentável e pode jogar o mundo em uma década de estagnação prolongada.
Para o Brasil e outros países em desenvolvimento, o cenário é ainda mais espinhoso. Dependemos de um comércio global aberto e de capitais estrangeiros que buscam oportunidades em mercados emergentes. Se as grandes potências decidem fechar suas portas e focar apenas em brigas políticas, países como o nosso ficam no fogo cruzado. O FMI insiste no reforço da cooperação internacional, mas a realidade política mostra que os líderes mundiais estão mais preocupados com as próximas eleições e com o protecionismo do que com o equilíbrio do sistema financeiro como um todo. A prudência pedida pelo fundo parece uma voz solitária em meio ao barulho do populismo econômico.
O que fica de lição desse encontro é que não podemos confundir a calmaria atual do mercado financeiro com a solução definitiva dos problemas estruturais da economia. O FMI cumpriu seu papel de estraga-prazeres ao apontar que o Rei está nu. A resiliência que vimos até aqui foi comprada com muito dinheiro público e taxas de juros que agora sufocam o investimento. Para o futuro próximo, a tendência é de volatilidade. O investidor inteligente e o cidadão atento devem observar os sinais de que a cooperação global está morrendo. Sem um entendimento entre as grandes potências e uma faxina nas contas públicas, o alerta de hoje pode muito bem se tornar a crise de amanhã, com consequências que nenhum governo parece realmente pronto para enfrentar.
Foto de Capa: Reprodução / jornaldenegocios.pt • Fonte Original: jornaldenegocios.pt
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